terça-feira, 23 de julho de 2024

A VITÓRIA NO 100K DA UAI E OS 235K SURVIVOR DE PATARO

 

Pataro pronto pra largada as 08h e eu vestido igual para tirar a foto rs, largaria no outro dia as 18h

“Prepara-se o cavalo para o dia da batalha, mas o Senhor é que nos permite a vitória”.

Estar em Passa Quatro para a UAI 2024, apenas 06 meses após a confirmação de um diagnóstico de lesão  meniscal (afora todo um combo de enfermidades afins rs), por si só, já explicava a tranquila e indisfarçável felicidade estampada em meu rosto ao adentrar nos domínios da adorável cidade mineira.



 A parceria de viagem com o irmão Pataro, prestes a nos representar na distância full da prova (235km), os reencontros com lugares e pessoas, a névoa fina, característica, de meados de julho,  o apito do trem, aos poucos estávamos totalmente imersos na UAI.

 

SEXTA-FEIRA –

 


Transbordando de emoção, após a execução do Hino Nacional, às 08h da manhã, os atletas do 235k (e a turma da double) deixavam Passa Quatro.


Sentindo um friozinho na barriga, como que se estivesse iniciando a minha própria prova, acompanhei  Pataro pelos 2,5km iniciais, desejando-lhe uma excelente jornada, antes de fazer meia volta.


De retorno a Passa Quatro, a vontade de seguir acompanhando um pouco da viagem do amigo foi maior que a ideia de descansar para os 100k (que, diga-se de passagem, só largaria no outro dia, as 18h), então resolvi pegar o carro para ir ver a passagem da turma no trecho entre as cidades de Itamonte e Alagoa.



Na saída do hotel, lancei convite a Solon, atleta carioca que havia ido dar um apoio a dois amigos que também estavam nos 235 survivor lá fomos nós acompanhar um pouco mais  da epopéia de nossos amigos.



Esse passeio fez a manhã passar rapidamente e pouco depois de meio-dia estávamos de volta a Passa Quatro, onde almoçamos na companhia da amiga Rosália Guarischi que, vinda de uma prova de 100milhas no exterior,  no outro dia (nenhuma surpresa rs), iria brincar de vencer os 55k da UAI.


O resto da tarde, noite, madrugada ocupei o tempo com o monitoramento da prova do amigo Pataro que àquela altura da competição já havia montado uma "equipe" para juntos seguirem até a conquista dos 235k.

SÁBADO –

Com o avançar das horas foi chegando aquela sensação do "Agora somos nós".

Por volta das 16h, em 02 ônibus da organização, deixamos Passa Quatro em direção a Largada.



Depois de uma viagem em que acabei dividindo parte dela, sentado com mais dois atletas que pareciam ser pai e filho e gentilmente me arrumaram um espaço e outra parte, viajando no lastro do ônibus, chegamos a Espraiado do Gamarra.


03 anos atrás, na primeira UAI Reverse, ali havia sido nosso ponto de chegada dos 100k e tendo chegado por volta das 08h da noite, não havia me dado conta de quão belo era o entorno.



As 18h, pontualmente, foi dada a largada dos 100k ( agora no sentido contrário do que havia feito na Reverse, um espécie de back to back), éramos um mundo de lanternas e não resistindo a imagem, deixei-me largar por ultimo para ir filmando a fileira de "vagalumes" que partiam naquele instante com destino a Passa Quatro.

Na rápida passagem pelo posto de Caxambu, fui informado que estava liderando os 100km survivor, pois todos os 03 atletas que já haviam passado estavam na modalidade com apoio de carro.

Sempre buscando manter um diálogo no momento das ultrapassagens (aproveitava também para apagar minha lanterna para poupar tempo de bom funcionamento), paulatinamente, fui alcançando e deixando para trás cada um dos competidores dos 100k e logo era o líder geral dos 100k (survivor e com apoio).


Na altura do km 30, vivi um do mais inesquecíveis momentos em minha vida de corredor. Estávamos por volta das 21h e em meio a escuridão adiante apareceram as luzes de um grupo de 05 corredores  (entre eles Rodrigo Villaça - tocaaa e o Uruguaio Juan)que seguiam juntos, rapidamente divisei entre eles, o irmão Pataro.

Antes mesmo de alcança-los, já estava muito orgulhoso de ver que ele era o cara que estava puxando a turma com um trote. É importante lembrar que naquele momento eles já estavam com 165km nas pernas e, na segunda noite seguida de corrida, e só pra dar logo um spoiller, cumpriria sua missão com 52horas de prova e sem dormir, confirmando o que eu lhe havia dito o tempo todo, desde quando migrei para os 100k por conta do rompimento do menisco - "Você está pronto para nos representar"

                                          Neste breve vídeo da UAI tem a passagem pelo grupo de Pataro no 235

Que felicidade, parei, festejei, filmei, precisava registrar aquele momento tão ímpar, aquele encontro sob um céu coalhado de estrelas pelas estradas rurais de Minas Gerais.

A turma havia se dado conta que eu era o primeiro dos 100km a aparecer, e me mandou ir embora aproveitando a alegria nas pernas, ao que retruquei, dizendo que estariam assim durante todo o caminho, rs.  Com o coração renergizado voltei-me à competição.


Paisagens que não vi, rs. ùnica reclamação da prova dos 100k largar as 18h


Na passagem em São Lourenço (km55), catei as coisas no drop-bag e como cheguei num momento que ainda iam repor a sopa, acabei saindo sem provar da iguaria.

Coisa que fui fazer na passagem do Bar de Ze Maria quando restavam pouco mais de 20km para chegar em nosso destino.

Pouco tempo depois, chegaria de carro a esposa do atleta, apoio do líder do 100k naquela modalidade. Àquela altura buscava a vitória sem nenhum porém, e mesmo sabendo que se tratava de outra modalidade dos 100k, parti imediatamente do derradeiro ponto de hidratação/alimentação caminhando enquanto saboreava a sopa quentinha, naquela madrugada dita por todos muiiiiito fria (eu só me lembro de estar intenso e suando sempre  rs). 

No meio do caminho, mesmo quando as pernas não estiveram no máximo da alegria rs, negociei comigo mesmo que só me permitiria uma caminhada quando estivesse subindo a serrinha.

Então, em meio a escuridão, senti que estava numa muito íngreme subida e pensei.. é chegamos nela meu Deus. Caminhando vigorosamente, venci o trecho dito como mais complicado do circuito dos 100km e assim que iniciou o desce e sobe, passe a fazer um fartlek correndo um km no mais forte possível, e o outro de forma mais tranquila, quando aproveitava para ir administrando o que restava de hidratação e alimentação. 

Na descida em espiral, finalmente era só desce mesmo, numa das curvas, surgiu la embaixo a visão maravilhosa da bela Passa Quatro.

Muitas curvas em descida, ainda seriam necessárias até pisar no chão de paralelepípedo, e ao entrar na cidade, aconteceu algo bem engraçado, o que mostra como somos competitivos.

Enlameado e muito feliz na chegada

Lá adiante iam dois corredores juntos, salvo engano eram dos 170km. Sem saber o quanto faltava ainda dentro da cidade, apertei o passo um pouquinho para ter um momento de confraternização com eles (durante toda a viagem sempre aproveitei o tempo de ultrapassagem para parabenizar aos atletas de toda e qualquer distância).

Com o incansável e sempre simpático Fernando Nogueira

Pois bem, os rapazes viram que eu ia chegando, e mesmo já extremamente cansados, começaram a correr feito loucos e eu achando até que os alcançaria, afinal eu vinha de uma prova menor, para dizer de perto que não era uma ameaça, me vi obrigado a gritar de longe: Ei, eu sou dos 100k.




Imediatamente eles detiveram a carreira desabalada rs. e ao emparelharmos ainda justificaram: "A gente não queria perder posição aqui já dentro da cidade". É a gente que corre, entende rs.




Com 11h35'01'11",  como Campeão Geral dos 100km, único da modalidade a chegar antes do dia clarear, explodindo de felicidade, cruzava o pórtico da Ultra dos Anjos Internacional 2024.



Só agradecer a Deus, sempre!