Continuando na tentativa de atrair gente para o Desafrio Urubici, resolvi contar um pouco da minha experiência nesta corrida no ano passado.
Na sexta feira à tarde ocorre a entrega do kit e à noite acontece o Congresso técnico onde são passados detalhes da corrida (este também haverá o jantar de massas). O Organizador explica os pontos mais difíceis e perigosos que requerem maior atenção e depois todo mundo se manda pra "casa" para dormir mais cedo.
A largada é às 7:30 do sábado e a duração máxima da prova é de 09 horas e 30 minutos, encerrando-se às 17:00 hs. Mais tarde, às 18:30, no Hotel Urubici, começa a cerimônia de premiação.
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No sábado, à hora programada, deu-se início ao Desafrio. “Não estava tão frio nem chuvoso como nas edições anteriores”. A toda hora era possível ouvir corredores e acompanhantes fazendo este comentário.
Logo na saída da cidade começava uma trilha bem enlameada; segui num ritmo tranquilo e minha primeira lição foi "nunca vá pelo capim verdinho".
Estava atento às pisadas dos corredores à minha frente (todos com pinta de veteranos naquela prova) e notei que eles sempre pisavam em lugares bem sujos e de vegetação amassada, deixando de lado trechos mais limpos da estrada; num dado momento resolvi forçar o ritmo e na primeira opção de um extenso capim verde e limpo decidi sair do trilho (quase em fila indiana) para ultrapassar um grupo de cinco corredores que ia na minha frente; a única coisa que consegui foi ficar atolado até acima do joelho, e haja dificuldade para sair, livrar-se da lama e retomar a marcha.
Outro momento interessante foi a passagem de uma pontezinha de madeira sobre um rio raso, mas extremamente frio. Ao aproximar-se dela lembrei-me que na noite anterior os Organizadores ressaltaram ser aquela ponte a mesma desde a primeira edição (07 anos), e como ninguém sabia muito bem o seu estado de conservação, recomendavam muito cuidado e que a primeira providência ao subir nela fosse agarrar a corda. Tava com tudo fresquinho na cabeça, só não contava com levar um grande escorregão antes de conseguir segurar no "corrimão". Por sorte, todo desengonçado consegui me apoiar na corda e segui adiante sem cair. Mais tarde viria a saber, através de outros corredores, que ela desabara.
No km 17, com muito mais tempo do que eu havia previsto, cheguei à Cachoeira Véu de Noiva, onde Titia Lalá e outras esposas de corredores com quem havia feito amizade esperavam nossa passagem. Passei em primeiro lugar na categoria "companheiros da Titia Lalá e amigas" e aproveitei para deixar com ela as luvas e a segunda pele que havia retirado no meio do caminho. Àquela altura, todo sujo e feliz, eu já tinha resolvido esquecer o mais que pudesse de tempo e curtir a experiência
Na saída para o asfalto revi o local onde havia socorrido uma vaca no dia anterior . Havia um posto de hidratação na junção trilha/asfalto onde, em lugar de isotônico, é oferecido aos corredores sopa quente.
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| O "homem que andava" |
Não comi nada além dos meus carboidratos e saí no asfalto numa boa velocidade. Nesta hora ultrapassei mais de dez corredores, entre eles um homem de cerca de 50 anos que, desde o começo da corrida, andou em todas as ladeiras da trilha e eu nunca conseguia alcançá-lo. Algumas vezes, quando o via andando lá na frente, eu apertava o passo e pensava "agora irei ultrapassá-lo", daí o aclive mais acentuado acabava, ele voltava a correr e sumia na minha frente (grrr).
Lá em cima a ventania era infernal, o lenço que veio no kit foi a salvação. Usei-o entre o pescoço e a cabeça, tapando principalmente as orelhas. Hora de retornar. Vi mais gente tomando sopa, mas, empolgado com minhas ultrapassagens, apenas peguei água e fiz meia volta.
O tempo estava diferente do dia anterior em que estava tudo sob neblina e pensei que quando avistasse a Titia Lalá, no km 35, iria aconselhá-la a subir com o carro para finalmente ver a beleza daquele lugar.
Na descida fiquei muito tempo ao lado de um Senhor que havia participado de todas as edições. Ele descia num bom ritmo, acenando e cumprimentando muita gente. Ouvi dele bons conselhos em relação a ter tranqüilidade, pois a pior parte, por incrível que parecesse, ainda estava por vir.
Quando passamos no posto, antes de sair da estrada para retornar a trilha, Titia Lalá já havia descido e não pude sugerir-lhe a subida ao Morro da Igreja.
Na descida da trilha fui ultrapassado por dezenas de corredores (inclusive pelo "homem que andava" o qual só voltei a ultrapassar definitivamente no km 48). Eu não tinha levado um tênis apropriado e nas pirambeiras ladeira abaixo quase não conseguia parar em pé, escorregava o tempo todo (eis a parte pior) e não sei como sai de lá sem levar nenhum tombo.
Às 12:50, com 5 horas e 26 minutos, na 23ª. colocação, cruzei a linha de chegada, bem cansado mas feliz. Estava pensando em experimentar finalmente a sopa, mas rendi-me à paçoquita com coca-cola (nunca na estória da minha vida tomei tanta coca-cola de uma só vez). Saí de lá para um abraço (cheio de cuidados para não enlameá-la) bem gostoso na Titia Lalá.Na ida para a Pousada encontrei com José Wilson, com quem havia feito amizade na Maratona de Porto Alegre, que vinha chegando na entrada da cidade. À noite ficamos sabendo que ele perdeu o pódio da categoria por alguns segundos, coisa que ele lamenta até hoje dizendo: "Conversei com o cara, nem imaginava que ele era de minha categoria". Não tem problema não Zé, se Deus nos permitir, retornaremos lá para subir no pódio.
À noite fomos à premiação. Troféus belíssimos (o Zé tem razão em ficar zangado) foram entregues antes do Jantar de Massas. Eu e Titia Lalá acabamos desistindo do jantar e fomos parar num rodízio de pizza com enorme variedade, em que devo ter comido umas trinta fatias (salgadas e doces).
Urubici e o seu Desafrio valem a pena!







