Êta sub-3 difícil sô! Vieram o RP e (até) um Pódio, mas o sonho de correr uma maratona na casa das 2 horas ficou para a próxima (se Deus quiser).
Antes de começar a falar da corrida propriamente dita não posso deixar de agradecer o grande carinho com que fomos acolhidos (Gil e eu) em Brasília pelo amigo e ultramaratonista José Wilson.
Sexta-Feira
Às 15:00 desembarcava na Capital Federal onde já me aguardava Wilson, que antes de instalar-me num apartamento na cidade-satélite de Águas Claras, fez questão de me levar para conhecer sua esposa, também corredora, e filhos na cidade-satélite de Ceilândia.
Mesmo com a rotina atribulada por conta de uma reforma que estão enfrentando em casa, foram boas horas de prosa passadas ali (alguém adivinha o assunto predominante? rs), inspiradas principalmente pela centena de troféus existente na coleção da família, toda envolvida com esportes.
Após um delicioso jantar fui deixado em “meu” apartamento e, em poucos minutos, o dia havia sido exaustivo, já viajava pelo reino dos sonhos.
Sábado
Conforme combinado, às 6:30 Wilson chegou para irmos a um Parque próximo fazer um “aquecimento” para a Maratona do dia seguinte.
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| Zé Wilson no Parque de Águas Claras |
Para mim era a grande oportunidade de experimentar se a tal “secura” brasiliense afetar-me-ia da mesma forma negativa como havia sido 10 anos antes, quando passei por ali em viagem de bike.
Quando estamos nessas cidades cheias de Parques bem cuidados, com iluminação, segurança e repletos de pessoas praticando esportes torna-se mais evidente o quão abandonada está Salvador.
Não sei se é o fato de termos uma orla grande que leva os governantes a negligenciar o cuidado com algo que pode elevar (e muito) a qualidade de vida da população, mas o fato é que em nossos Parques (Pituaçu, da Cidade, São Bartolomeu) o que impera é o descaso e a insegurança.
Voltando a Brasília...
45 minutos de treino em temperatura agradabilíssima foram suficientes para afastar meu receio de uma crise de labirintite e projetar uma boa corrida para o domingo.
Após um banho partimos para o Aeroporto para buscar o amigo Gil e acabamos chegando praticamente no mesmo horário.
O tempo estava curto para Wilson, que ia acompanhar a filhota numa prova de natação, mas ainda assim, antes de ir embora, o cara nos presenteou com um city tour pelo Plano Piloto, deixando-nos em seguida na Estação Central, onde almoçamos e mais tarde pegamos metrô para casa.
Tava na hora de começar a concentração.
No final da tarde, para relaxar, aproveitamos para ver “Somos tão Jovens”, filme sobre Renato Russo, que estreou essa semana e tem exatamente Brasília como pano de fundo.
Domingo
Fomos apanhados por Zé Wilson por volta das 5:40 da manhã.
Pra variar, toda confiança que me acompanhara nos últimos dias já tinha ido embora, cedendo lugar à velha e conhecida dor de barriga.
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| Na tenda da CORDF |
Como sei que não adianta nada, tratei de sossegar, logo soaria a buzina e tudo voltaria ao normal.
A Corrida
Sem atrasos, foi dada a largada em conjunto da Maratona e do Revezamento 21k.
Muita gente havia me alertado para o grande número de ladeiras do percurso. O destaque maior ficava por conta dos 5 últimos quilômetros, todos em subida e com uma ladeira de incrível inclinação ao lado do Congresso Nacional, 500 metros antes da chegada.
Havia poucas pessoas na prova e, empolgado com a proximidade com os líderes (deu para contar 22 pessoas à minha frente), fiz o primeiro km em 4’06 e o segundo em 3’56.
Estávamos numa descida, tinha consciência que precisava aproveitá-las para compensar as perdas das subidas, mas estava muito cedo e resolvi segurar o passo.
Neste momento passaram por mim pelo menos uns 20 corredores. Olho no relógio, fui regulando o ritmo. Em pouco tempo quem emparelhou comigo foi Marluce, a conterrânea que viria a ser a campeã feminina da Maratona.
Por volta do km 4, enfrentávamos uma enorme subida quando avistei a placa do km 38. Recomendado por Marcelo Augusti, estava levando comigo 200ml de dextrose para tomar quando faltassem 4 ou 5km para acabar a Maratona e, vendo ali uma oportunidade para diminuir o peso na viagem, sem pestanejar, deixei minha garrafa.
Depois de uma boa acelerada emparelhei novamente com Marluce e, após desejar-lhe boa prova, voltei a apertar o passo e me adiantei.
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| Marluce momentos antes da largada |
Sempre que se está correndo uma prova longa com poucos competidores (foram apenas 284 na Maratona) há o risco da solidão.
Correr em bloco é muito mais fácil, portanto para quem está correndo contra o relógio é preciso muita concentração. Se vacilar, o cara se acomoda no bloco onde está com medo de fazer sozinho a viagem entre ele e o próximo atleta, que pode estar muito distante.
Verificando o tempo de cada quilômetro, só em alguns números-chave checava como estava o acumulado para analisar como estava a possibilidade do sub-3.
Foi assim que ao passar no Km 10 descobri que estava com a boa marca de 41’48 segundos.
Dividindo a prova em três terços, a próxima passagem a ser checada seria a dos 14km, onde teoricamente precisava passar abaixo de 1 hora (no km 28, abaixo de 2 horas) para chegar aos 42 abaixo das 3 horas, digo teoricamente porque ainda precisava de uma certa margem para os duzentos metros finais.
A passagem no km 14 foi animadora: 58’38, mantendo esta pegada sobraria tempo pra bem mais que duzentos metros (rs), mas é claro que há que se jogar nesta conta o desgaste do tempo de prova e principalmente, no caso de Brasília, os famosos 5km em subida no final.
Sempre correndo sozinho alcancei a marca da meia maratona e, cheio de curiosidade, fui logo checar o acumulado: 01h29’40. O negócio continuava possível. Animado, aprovei uma descida enorme que surgiu logo após o 21 e comecei a mirar bem lá na frente um corredor que ia ultrapassando a todos.
O cara ia bem consistente e mesmo de longe era uma inspiração para manter a pegada.
Chegou o Km 28 e com ele a hora de matar a curiosidade do tempo total de prova, e a espera valeu a pena: 01h58’55. Aqueles 65 segundos de sobra eram suficientes para os duzentos metros finais e ainda me davam o direito de fazer o último terço da prova até mesmo em uma hora fechada.
Fracionar a prova ajuda muito a tornar a chegada mais próxima. Uso inclusive neste processo de passatempo o próximo posto de hidratação, o próximo momento de ingerir carboidrato, a próxima consulta ao relógio (rs) e isso com certeza é bem mais fácil do que pensar nos 42,2km de uma só vez.
No km 34 alcancei enfim o “senhor” que havia elegido como coelho desde a marca da meia maratona.
De longe havia notado que apenas um entre os seus muitos ultrapassados conseguira aumentar o ritmo para brigar com ele, entretanto, exatamente no momento em que me aproximava o homem que reagira dava mostras de que não mais aguentaria aquela pegada.
Julgando que o homem que ficara pra trás podia ser alguém da minha faixa, tratei de passar por ele em alta para emparelhar logo com o meu coelho a quem euforicamente saudei com a seguinte frase:
– Há 13km que venho pegando carona no seu ritmo.
Ele riu amigavelmente (a gente nunca sabe o que uma frase destas pode provocar) e eu, feliz por não ter sido mal interpretado, mantive-me ao lado dele por alguns metros antes de avançar em minha busca.
As temíveis ladeiras já haviam começado e mesmo sabendo que aquela não era a prova ideal para correr buscando o melhor tempo não me deixava intimidar.
Ao avistar de longe a minha garrafa de dextrose, antes de me abaixar cuidadosamente para pegá-la, resolvi dar uma conferida no tempo total de prova e o que vi foi animador 02h42’11.
Cuidadosamente ergui o corpo (após tanto tempo correndo devemos evitar movimentos bruscos) e, de um só gole, ingeri todo o conteúdo da garrafa.
Acostumado a produzir pensamentos positivos para anular os milhares de pensamentos negativos que nos ronda toda vez que estamos nos exigindo ao máximo (o que é que estou fazendo aqui, etc), pensei que mesmo não tendo sentido grande melhora no desempenho com a dextrose no treino da semana anterior, desta vez ela iria ajudar.
Aí o bicho pegou.
Dei apenas uns passos julgando-me mais forte, quando comecei a me sentir tonto, estava subindo uma grande ladeira e com medo daquela tontura avançar para uma crise de labirintite.
Sabia que se fosse preciso sentar para esperar passar a tontura perderia no mínimo 5 minutos e aí adeus sub-3 (plano 1) e provavelmente adeus RP (plano 2).
Rezando a Deus que não deixasse aquilo acontecer justamente naquela hora, comecei a tatear em meu cinto à procura de um sachê de sal que Gil me dera pela manhã.
Antes do Km 39 fui ultrapassado por meu coelho, mas em algum momento entre o 39 e o 40 o mal-estar foi embora e voltei ao ritmo antigo.
Do 40 já era possível ver o Congresso e a enorme rampa a subir antes do passagem no pórtico, sabia que provavelmente o sub-3 já estava prejudicado, mas ainda restava tentar o RP então, juntando forças, parti para um tiro de 2.000 metros.
Meu Polar estava ajustado para tocar com 3 horas de prova (o som que eu não queria ouvir antes que acabasse a corrida). Disposto a não mais olhar o acumulado, subi à toda torcendo para que o sinal viesse bem depois do 41 e fosse possível superar os 3h03’31 da Maratona de Porto Alegre no ano passado.
No meio do caminho tornei a passar meu coelho, chegou o 41 e felizmente nada do bip. Minha nova torcida era que ele só tocasse quando estivesse no pé da rampa e, animado com o silêncio, deixei para trás mais um corredor.
Veio a rampa e nada do bip soar. Será que ainda dava? À minha frente um corredor que ia no meio da rampa começou a andar. Opa, vou passar este também! pensei. Mas, avisado por um torcedor (talvez da mesma equipe) o cara desistiu de chegar caminhando e voltou a correr no exato momento em que soava o aviso de 03 horas de prova em meu relógio.
O sub-3 já tinha ido embora, mas o RP já estava quase certo. Terminada a “escalada”, ainda restavam uns 300 metros.
Poderia ter ficado chateado com o fato de chegar tão perto do sonho do sub-3, mas o novo RP numa prova tão difícil, depois de um momento de tanta incerteza na prova, precisava ser comemorado e, acima de tudo, agradecido imensamente a Deus. Afinal de contas adoro ter que entrar na aba Recordes Pessoais deste blog para fazer atualização.
Somente hoje me dei conta que talvez o meu erro tenha sido beber de vez a dextrose.
Com o dever cumprido fui reabastecer as forças num muito bem vindo buffet de massas. Aliás, Parabéns para a Organizadora Latins Sports, que realizou uma prova quase perfeita, não fosse uma certa confusão na hora da premiação por categoria.
Pouco depois chegava Gil, que mesmo fotografando durante a prova (e conversando no celular) fechou-a com 3h26.
Antes das 04 horas de prova quem chegou completando sua 80ª prova de longa distância (a maioria com distância superior a 42km) foi o amigo José Wilson.
No final, a cereja do bolo. Para surpresa de ambos, eu Joás da Silva Gomes (o tal coelho a quem “perseguira” desde a metade da Maratona e com quem ficara conversando boa parte do tempo depois da prova), éramos da mesma categoria e juntos fomos ao pódio como campeão e vice-campeão da categoria, respectivamente.
Adeus Brasília, vou morrer de saudades.